Os Núcleos de Acessibilidade e Inclusão são essenciais — mas não podem carregar o desafio da inclusão sozinhos
A discussão sobre acessibilidade no ensino superior brasileiro tem avançado de forma significativa nos últimos anos. Estudos e reflexões recentes, como as publicadas pela Revista FT, evidenciam o papel fundamental dos Núcleos de Acessibilidade e Inclusão (NAIs) na promoção da permanência de estudantes com deficiência nas universidades.
Esses núcleos representam um avanço institucional importante. No entanto, à medida que a demanda cresce e o perfil dos estudantes se torna mais diverso, um ponto começa a ficar claro: o NAI é essencial — mas não consegue escalar sozinho.
A inclusão deixou de ser um desafio pontual. Ela se tornou estrutural, transversal e crescente — e isso exige uma abordagem institucional mais ampla.
O papel dos NAIs na inclusão universitária
Os NAIs surgiram como resposta à necessidade de transformar políticas públicas de inclusão em ações concretas dentro das instituições de ensino superior. Seu papel envolve desde o apoio direto aos estudantes até a articulação com docentes, coordenações e áreas administrativas.
Entre suas principais atribuições estão:
Como apontam análises acadêmicas sobre o tema, esses núcleos se tornaram o principal ponto de apoio institucional para estudantes com deficiência — muitas vezes concentrando demandas que atravessam toda a universidade.
Quando o crescimento expõe os limites do modelo atual
O aumento no número de estudantes com deficiência e condições neurodiversas é uma realidade consolidada no ensino superior brasileiro. O desafio não está no crescimento em si, mas na falta de estrutura institucional para acompanhá-lo.
Em muitas universidades, os NAIs ainda operam com:
Esse modelo tende a entrar em colapso à medida que o volume aumenta. Os impactos aparecem de forma gradual: atrasos, retrabalho, dificuldade de acompanhamento dos casos e falta de dados consolidados para a gestão institucional.
O risco de tratar acessibilidade como responsabilidade de um único setor
Um ponto recorrente nas análises sobre inclusão no ensino superior é o risco de tratar a acessibilidade como um tema restrito a um núcleo específico.
Quando isso acontece:
A acessibilidade não é um problema do aluno.
Não é um problema do professor.
E não pode ser apenas um problema do NAI.
Trata-se de um desafio institucional, que exige integração entre áreas acadêmicas, administrativas, tecnológicas e de gestão.
Dados e governança como pilares da inclusão que escala
Universidades que avançam de forma consistente na agenda de inclusão compartilham uma compreensão comum: o papel do NAI precisa ser sustentado por estrutura, dados e governança institucional.
Isso significa:
Sem esses elementos, o NAI tende a operar de forma reativa — fazendo muito, mas com impacto limitado diante da complexidade do cenário atual.
Inclusão estruturada é inclusão sustentável
Os Núcleos de Acessibilidade e Inclusão são fundamentais para o avanço da inclusão no ensino superior. Mas eles não podem — nem devem — atuar sozinhos.
O futuro da acessibilidade passa por tratá-la como:
Quando a instituição oferece estrutura adequada, o NAI deixa de ser apenas um ponto de atendimento e passa a atuar como agente estratégico de transformação.
Referência
Este artigo foi inspirado em reflexões publicadas pela Revista FT, no texto
“Inclusão no ensino superior: o papel dos Núcleos de Acessibilidade e Inclusão no Brasil”.
Leia também: A inclusão ainda está no papel? O panorama da acessibilidade e da neuro diversidade nas universidades brasileiras